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Os desafios reais de crescer ao lado de um adolescente

Adolescência: quando a casa inteira entra em transformação.

Outside Talks sobre adolescência, limites e vínculo familiar

Este artigo responde

Como acompanhar um adolescente com presença, limites e vínculo, sem transformar a casa num campo de batalha nem abandonar a própria identidade como mãe.

Pontos principais

  • A adolescência transforma os filhos, mas também reorganiza a família inteira.
  • Limites consistentes podem ser uma forma de vínculo, não de rutura.
  • Prevenção não é controlo absoluto: é conversa repetida, presença e relação.
  • A mãe também precisa de se reposicionar e cuidar da própria identidade.

O que significa acompanhar um adolescente nos dias de hoje — e sobretudo aquilo que também se transforma em nós, quando eles começam a crescer. Porque a adolescência não é apenas uma fase difícil dos filhos, é também uma etapa exigente para quem os ama, educa e acompanha.

Não temos só que “lidar com eles”, temos também que “nos reposicionar enquanto mães”.

A casa muda porque o adolescente está a mudar

E, por estas razões todas é uma etapa transformação — para os filhos, mas  também para nós. Não é fácil ser mãe (é com certeza o meu papel mais difícil) mas também não é fácil ser-se filho e é ainda mais difícil ser-se filho e adolescente ao mesmo tempo.

A adolescência é uma salganhada: o corpo muda (crescem pés, mãos e narizes de forma descontrolada), as hormonas apoderam-se de grande parte das nossas crianças fazendo-as parecer como se às vezes estivessem possuídas e os amigos ganham uma importância enorme, com o efeito de grupo, no que tem de mau e de bom. E nós, deixamos de ser o centro da vida deles, que repente acham que nós somos dinossauros e que eles estão no cimo da cadeia alimentar.

Mas não é só o corpo que sofre imensas transformações, o cérebro também e a uma velocidade quase furiosa. É mais ou menos como se me colocassem um skate nos pés para eu ir para o trabalho quando eu até de saltos às vezes tenho dificuldade em equilibrar-me.

No entanto, apesar de já não serem crianças, também não são adultos. São então o quê?!

São miúdos a passar por um ponto de viragem: antes de uma nova organização, há desorganização. O nosso adolescente não está “apenas a ser irritante e difícil”, ele está em transição. Está a ser reconstruído.

Como dizia Winnicott: o adolescente precisa de se afastar sem sentir que perde a casa. Precisa de testar autonomia, oposição e diferença, como também precisa de encontrar um ambiente que aguente essa turbulência sem retaliar, invadir ou desistir.

Fácil, não é?! Pronto…obrigada e até à próxima!

Mas talvez o primeiro convite que nos faça seja este: antes de nos perguntarmos “o que é que se passa com ele?”, perguntemos antes “que mudança (tão estúpida…que às vezes é o que nos parece” é esta que ele está a tentar atravessar?”

  • O silêncio pode não ser desprezo. Pode ser necessidade de espaço.
  • A irritação pode não ser rejeição. Pode ser excesso interno, a tal “muita areia para a minha camionete”
  • O afastamento pode não ser falta de amor. Pode ser tentativa de autonomia.
  • A oposição pode não ser apenas afronta. Pode ser construção de identidade.

Isto não significa deixar de pôr limites. Pelo contrário. O adolescente precisa de limites. Os limites balizam, dão segurança. Mas precisa de limites que sejam dados por adultos que conseguem compreender esta fase, e não apenas reagir ao sintoma (como um revirar de olhos…que nervos meu Deus). E aqui é que a porca torce o rabo. Porque é um caminho (muitas vezes…ou sempre?!) difícil. E não há um livro de instruções. E se por acaso virem um não comprem. É perder tempo e dinheiro e mais vale ir beber um copo.

Limites são vínculo, não são rutura

Muitas de nós temos medo de dizer “não” porque receamos perder a proximidade, provocar mais um conflito e tornar a casa um campo de batalha. Mas, quando os limites são dados com coerência, presença e respeito, isto ajuda a alguma organização.

Os limites são uma forma de dizer: “Eu vejo-te, levo-te a sério, sei que estás a crescer, mas ainda sou A adulta aqui de casa.” Claro que eles testam, desafiam, experimentam. Não porque queiram destruir a relação, mas porque precisa perceber onde está o chão, ou os limites, porque senão ele fica entregue à própria impulsividade e ao grupo.

Winnicott ajuda-me outra vez: é que também não existem ambientes perfeitos, existem ambientes suficientemente bons. Um ambiente bom não é um ambiente sem frustração. Pelo contrário: crescer implica encontrar limites, responsabilidades e aprender a lidar com isso.

E quando conseguimos mantê-los (sem deixar que eles se sintam amados, estamos a comunica uma coisa fundamental: “A tua raiva não destrói a nossa ligação.” E isto é profundamente tranquilizador, mesmo quando o nosso adolescente não o admite. Que é o que acontece provavelmente na maioria das vezes…)

Mas outra tarefa difícil para as mães e para a família: estes limites não podem ser apenas uma ordem isolada; precisam de fazer sentido no sistema da família. Mais um problema, não é? Quando as regras são incoerentes, arbitrárias ou mudam conforme o nosso cansaço (e é legítimo) o nosso adolescente percebe a fragilidade, que é no fundo uma oportunidade para retirar benefícios secundários. Os espertalhões…baliza aberta…toca a marcar golo!

Dizer “não” com coerência não é dizer “não” a tudo. É saber quais são os limites verdadeiramente importantes (e cada uma tem os seus): segurança, respeito, horários, escola, sono, uso de ecrãs e responsabilidades.  E é também saber distinguir o que é essencial do que é uma preferência nossa, ou às vezes, até um capricho.

Há uma diferença enorme entre: “Não vais porque eu mando.” e “Eu percebo que queiras ir e também percebo que este grupo é importante para ti. Mas, nestas condições, eu não fico tranquila. Podemos rever isto quando me reunires mais informações, me deres todas as razões para me convenceres que se eu te deixar ir é seguro, ou, pelo contrário, desta vez não acho adequado ires, mas quando sentir que estamos preparados para essa fase voltamos a falar. Não quero parecer ingénua porque sei que o mais certo é ele reagir mal a qualquer uma das abordagens. Mas, na segunda, há vínculo dentro do limite. Existe escuta, não existe só o nosso medo.

A presença firme sem autoritarismo passa por três movimentos:

Primeiro: ouvirmos antes de tomarmos uma decisão. De outra forma, não temos como perceber o que está em jogo.

Segundo, decidir com clareza. Livremo-nos dos “nãos” inseguros, culpados e cheios de justificações infinitas e às vezes contraditórias.

Terceiro, o limite não deve vir acompanhado de uma retirada afetiva. É importante dizermos não e castigarmos com frieza. É possível dizermos “não” e continuarmos disponíveis.

Os limites não servem para vencer, servem para ajudar a crescer.

Esta distinção é muito importante. Há coisas que exigem firmeza. Outras exigem negociação. Outras exigem simplesmente tolerância à diferença. Nem tudo precisa tornar-se numa disputa de poder.

A mãe também entra numa nova fase

A adolescência não acontece só ao adolescente, acontece à família inteira. Quando o filho muda, os pais também são obrigados a mudar. Quando nasce uma criança nasce uma família, não é? Pois quando nasce um adolescente é mais ou menos a mesma coisa.

Mas quero pôr um pezinho na nossa adolescência e na deles ao mesmo tempo.

Hoje (ou se calhar na nossa geração), a tendência foi darmos-lhes todas as condições que nós não tivemos. Se calhar até nem tivemos nenhumas que sequer se assemelhem, ou então tivemos outras, simplesmente diferentes. Mas a verdade é que antes “era preciso uma aldeia para educar uma criança” e agora a aldeia desapareceu.

O que sobrou? Mais peso para cima das mães, que têm de se multiplicar em papéis, quase parecendo que somos todas as figuras daquele jogo, o “quem é quem?”, ao mesmo tempo e numa só pessoa. O que é, obviamente, violento.

E o que é que muitas vezes isto nos traz? A culpa. Que é uma trampa.

E então o que é que o nosso inconsciente faz? Protege-nos (acha ele) e, em jeito de resolução do problema, convence-nos que, se compensarmos os nossos filhos, já não somos assim tão culpadas. E por isso, enchemo-los de coisas (para além da escola…que já os enche demasiado de tempo…, mas é a tal pescadinha de rabo na boca: se não estiverem na escola, estarão onde?)

E aí vão eles, a crescer debaixo de um conjunto de pressões enormes (e que, na maioria nem são deles). É quase como se estivéssemos a colocar 5 pessoas dentro de um smart…não cabem e, mesmo se couberem…não faz qualquer sentido.

Como reverso da medalha, temos adolescentes que são menos adolescentes do que nós provavelmente fomos, mas com certeza são menos do que aquilo que deveriam ser.

A prevenção não é ter controlo absoluto. A única coisa que é importante que se mantenha absoluta é a relação. É importante:

Conseguir falar de álcool antes da festa.

De sexualidade antes do susto.

De drogas antes da oferta.

De redes antes da exposição.

De pressão escolar antes do colapso.

De ansiedade antes do isolamento.

Quando a conversa só aparece no momento da crise, ela vem carregada de medo. Quando faz parte da vida, ela pode vir carregada de afeto e, portanto, de vínculo. É a importância da comunicação. Não se trata da importância de concordarmos sempre. Trata-se de não desistirmos de comunicar.

Portanto, o jogo está a decorrer e nós somos convocadas para uma nova etapa da maternidade, ou seja, passamos a jogar noutra posição à qual não estávamos habituadas (deve ter sido o que aconteceu ao Benfica este ano).

Durante a infância, nós, mães, ocupamos a maior parte das vezes um lugar central: protegemos, organizamos, antecipamos, explicamos como tudo funciona (e eles acreditam), resolvemos tudo, acalmamos só com o colo ou com um “a mãe está aqui”. Acho esta frase mágica.  Há, portanto, uma dependência visível onde com pouco esforço conseguimos ainda ver o cordão que nos ligou durante 9 meses.

O adolescente desorganiza-se, já vimos, mas nós também. E, por isso, precisamos de abandonar as expectativas de que a relação continua igual. Porque não continua. Se tentarmos o mesmo tipo de controlo, o que podemos estar a fazer é aumentar o conflito. Mas se desistirmos, deixamo-los sozinhos. O desafio é encontrar uma nova forma de presença.

E então lá vem Winnicott ajudar-me novamente: a mãe suficientemente boa não é a mãe perfeita, nem a mãe que controla tudo. É a mãe que se adapta progressivamente às necessidades reais do filho. O adolescente precisa de se afastar, mas precisa que continuemos emocionalmente disponíveis. Só que às vezes emocionalmente estamos um caco. Mais uma vez…fácil, não é? É que é mesmo fácil sermos mulheres e mães…

E então passamos também nós muitas vezes por uma “crise de identidade” que, na verdade é também crescimento: Quem sou eu agora que o meu filho já não precisa de mim da mesma forma? Como continuo a ser mãe? Como o protejo sem o impedir? Como é que o acompanho sem o invadir?

É um dos lutos que temos de fazer: a criança que tínhamos e o adolescente que temos. Não quero com isto dizer que o nosso filho de repente é um sapo e deixou de ser um príncipe (embora muitas das vezes pareça exatamente isto), quer dizer que precisamos de rever algumas expectativas: talvez o nosso filho já não nos conte tudo, mas ainda precisa de nós. Talvez já não nos peça colo, mas continua a precisar de casa. Literal e metaforicamente.

E neste caminho, o medo faz parte. A culpa faz parte. E a vontade de controlar faz parte. A sensação de perda também faz parte. E podemos responder ao nosso filho a partir da ferida que sentimos, ou seja, de dentro para fora: controlamos porque temos medo, invadimos porque nos sentimos excluídas e cedemos porque temos medo de perder o vínculo.

E o tempo que enquanto mães precisamos para nós enquanto mulheres, não é uma fuga da maternidade. É uma condição para que a maternidade não fique sufocante. O nosso adolescente precisa de espaço, e esse espaço também pode devolver-nos uma parte de nós: mais tempo, interesses, amizades, silêncio, vida própria. A mãe suficientemente boa não é a mãe totalmente sacrificada. É uma mãe viva, inteira, capaz de cuidar de si sem desaparecer (e bem sabemos como às vezes é mesmo isso que apetece).

Oliver Sacks diria que a mãe também está a reescrever quem é. Durante anos, a identidade pode ter estado muito colada à função materna. Na adolescência do filho, abre-se uma pergunta íntima: “quem sou eu agora, para além de ser necessária?”

E deparamo-nos nesta também nova fase da nossa vida com dúvidas como:

  • “Como mantenho uma relação no meio da maternidade?”
  • “Com esta alteração na família, o casal desaparece?”
  • “Amor depois disto: mantem-se? Recomeça? Ou acaba?
  • “Entre ser mãe, mulher e parceira: onde é que eu fico?”

Riscos e prevenção

Quando falamos de adolescência, falar de risco é inevitável: as redes sociais, o álcool, as drogas, a sexualidade, a pressão escolar, a exposição online, os grupos de pares, as festas, a imagem corporal, a ansiedade de desempenho — tudo isto começa a ser real na vida dos nossos filhos e, claro, acorda uma série de medos que tínhamos cá dentro guardados.

Cada fase do desenvolvimento traz novas competências, mas também novas dificuldades. Os nossos filhos ganham corpo, pêlos, cheiros, autonomia, desejos, pertença de grupo, acesso ao mundo e capacidade de decisão (menos do que aquela que eles acham que têm), mas ainda estão a desenvolver a sua maturidade emocional e a capacidade de se regularem internamente. É que ainda não são adultos, mas também já não são crianças.

Por isso, a prevenção precisa acompanhar o desenvolvimento. E não pode ser uma palestra isolada (estilo “pronto, já falei com ele e já lhe disse como as coisas são). É muito chato, cansativo, faz rugas e envelhece a pele, mas tem de ser uma comunicação repetida, ajustada à idade, ao momento e à realidade dos nossos filhos. É diferente falar, por exemplo, de redes sociais aos 10, aos 13 ou aos 16. Assim como é diferente falar de álcool antes da primeira festa, depois de uma situação concreta ou quando já existe consumo no grupo.

Os nossos adolescentes precisam de testar a realidade, estão a construir-se e a ver qual o caminho que melhor lhes assenta. Mas precisam (mesmo que não saibam), que essa realidade não seja vivida sozinha, sem alguém que o ajude (mesmo que também não o compreendam) a metabolizar, ou seja, a dar sentido aquilo que vão encontrando.

E prevenir não é só vigiar, é conhecer quem é este novo filho. É saber com quem anda, o que o preocupa, onde se sente pressionado, o que o envergonha, o que o entusiasma, como é a cultura do sítio onde ele vive. Mas calma porque também não precisamos saber tudo. É sempre melhor conseguirmos dizer um: “isto preocupa-me”, “quero perceber melhor”, então ajuda-me a conhecer esta nova realidade.

A prevenção mais forte talvez seja esta: ajudar os nossos filhos a pensar antes de agir. A reconhecer sinais internos. A perceber quando estão a ceder à pressão. A conseguir pedir ajuda sem sentirem que serão destruídos pelo nosso julgamento.

Nas redes sociais, isto é também urgente.

E aqui…é como se fosse uma festa de bar aberto…tudo lhes é servido e nós não temos controle (ou dificilmente temos controle…absoluto).

Por exemplo, o colégio onde os meus filhos mais velhos estudam, proíbe a utilização de telemóveis durante todo o período de aulas até ao 9º ano (os telemóveis são-lhes retirados assim que entram na sala de aula à primeira hora da manhã e só os podem ir buscar no final da última aula do dia). É espetacular, não é?!

Mas os livros são digitais…. Afinal já não é assim tão espetacular, pois não?!

O mundo online não é um mundo “a fingir”, ele existe, ainda bem que existe, desde que não exita a solo. É um espaço real de relação, comparação, violência, sedução, pertença, exclusão, de reputação e risco. Muitos adultos tratam o digital como se fosse separado da vida, mas para os adolescentes ele é parte da vida. Por isso, conhecer o mundo online como se conhece o mundo offline significa entrar com curiosidade: que aplicações usa, a que conteúdos assiste, que pressões aparecem, que imagens vê, que conversas tem e que silêncios ficam depois do ecrã.

Porque os nossos filhos não estão apenas “agarrados às máquinas”. Estão, muitas vezes, à procura de presença, pertença, descarga, reconhecimento e fuga. O telemóvel, os jogos e os mundos virtuais oferecem resposta imediata: estímulo, recompensa, controlo, identidade e uma sensação de ligação permanente.

O problema não está apenas nestas “máquinas do além”; está no lugar que elas ocupam quando passam a regular emoções que antes eram acolhidas por pessoas. Uma vida demasiado mediada por ecrãs empobrece a experiência sensorial: o toque, a espera, o aborrecimento, o passear, conversar, olhar nos olhos uns dos outros.

Não vamos conseguir ser polícias digitais. Mas também não queremos ser fantasmas no mundo onde os nossos filhos vivem todos os dias.

Mas nunca esquecendo a parentalidade contemporânea, ou seja, a vida de verdade: nós andamos exaustas, culpadas, cheias de pesos e responsabilidades para carregar e a querer acertar sempre. Muitas vezes, o ecrã entra como solução possível num quotidiano impossível. Por isso, esta conversa não pode ser sobre culpa. Tem de ser sobre consciência.

A pergunta essencial é: o que é que o ecrã está a resolver dentro daquela casa? Porque, antes de desligar a máquina, talvez seja preciso ligar outra coisa: a escuta, o vínculo, o tempo em comum, os limites e a presença. A prevenção não é ter controlo absoluto. A única coisa que é importante que se mantenha absoluta é a relação.  É importante:

Conseguir falar de álcool antes da festa.

De sexualidade antes do susto.

De drogas antes da oferta.

De redes antes da exposição.

De pressão escolar antes do colapso.

De ansiedade antes do isolamento.

Quando a conversa só aparece no momento da crise, ela vem carregada de medo. Quando faz parte da vida, ela pode vir carregada de afeto e, portanto, de vínculo.

É a importância da comunicação. Não se tratar da importância de concordarmos sempre. Trata-se de não desistirmos de comunicar.

Adolescência e Identidade

Oliver Sacks ajuda-nos a olhar para cada pessoa como absolutamente singular. Não há dois percursos iguais. Reduzir um adolescente a um rótulo — seja para aceitar ou rejeitar — é sempre poucochinho. Muitos pais vivem isto entre medo, culpa e exigência de acertar. Mas ser mãe e pai não é controlar o destino dos filhos; é sustentá-los enquanto eles se tornam alguém.

Judith Butler pergunta: “O que acontece quando uma pessoa não se reconhece nos papéis que lhe foram atribuídos?” Eu acho a questão muito interessante porque abre uma conversa menos moralista: talvez o problema não seja o adolescente “não saber quem é”, mas eventualmente o mundo exigir que ele escolha caber numa caixa demasiado pequena.

Diane Ehrensaft usa a ideia de “crianças criativas no género”: crianças e adolescentes cuja identidade ou expressão não cabe exatamente no que lhe foi atribuído à nascença.

A proposta dela é escutar primeiro. Não correr para corrigir, negar, assustar-se ou decidir tudo pelos filhos. Ela defende um modelo afirmativo, em que pais e profissionais acompanham a criança/adolescente para perceber se aquilo é exploração, expressão, sofrimento, identidade persistente ou necessidade de um apoio mais especializado.

O ponto mais importante em Ehrensaft é que cada percurso é singular. Nem todos os adolescentes que questionam o género terão o mesmo caminho. Alguns estão a experimentar a linguagem, a estética e a pertença. Outros têm uma identidade muito clara e persistente. E outros estão a tentar nomear um mal-estar mais amplo. Por isso, a resposta adulta precisa de ser cuidadosa, presente e sem pânico. E procurar ajuda para entender e saber lidar está a valer.

Talvez parte da resposta esteja em perceber que, quando um adolescente cresce, a família inteira se reorganiza — e nós também.

Este texto nasce a partir de uma reflexão partilhada numa Outside Talk, no Hub Outside, sobre adolescência, maternidade, limites e vínculo.

O texto propõe uma reflexão sobre adolescência, parentalidade e vínculo familiar, não substituindo acompanhamento psicológico, médico ou especializado quando necessário.

Perguntas respondidas

Por que a adolescência muda a dinâmica da casa?

Porque o adolescente está a atravessar mudanças físicas, emocionais, sociais e identitárias, e a família precisa de se reorganizar para acompanhar essa transição.

Limites afastam os adolescentes?

Não necessariamente. Quando são dados com coerência, presença e respeito, os limites podem reforçar o vínculo e dar segurança.

Como falar sobre riscos na adolescência?

A conversa precisa acontecer antes da crise: álcool antes da festa, sexualidade antes do susto, redes antes da exposição e ansiedade antes do isolamento.

Fontes e referências

  • Donald Winnicott
  • Oliver Sacks
  • Judith Butler
  • Diane Ehrensaft
  • Reflexão partilhada numa Outside Talk do Hub Outside