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Eles começam a sair de casa antes de saírem de casa

Autonomia, adolescência, medo e confiança quando os filhos começam a ganhar mundo.

Colagem editorial com frase sobre adolescência, mãe e filho à beira-mar

Este artigo responde

Uma reflexão autoral sobre como mães podem acompanhar a autonomia dos filhos adolescentes com confiança, regras, presença e limites de segurança.

Pontos principais

  • Na adolescência, os filhos começam a ganhar mundo antes de saírem definitivamente de casa.
  • Autonomia não significa ausência de regras: confiança e segurança precisam andar juntas.
  • O papel dos pais muda de controlo permanente para retaguarda disponível.
  • A presença segura continua essencial, sobretudo quando há riscos, dúvidas ou necessidade de ajuda.

O meu filho Afonso tem 16 anos e foi passar uns dias ao Algarve com amigos. Sem adultos. Numa casa de praia de família de um dos elementos do pequeno bando de pardais à solta.

A minha reação quando ouvi a comunicação:

“Vou passar uns dias ao Algarve” - Oi?!

“Com amigos” - Sinto o meu batimento cardíaco acelerado e não disfarço a perplexidade

“Sem adultos” - Começo a ter sintomas de desmaio. Até pareço que estou a ouvir o apito lá ao fundo…

“Numa casa de praia” - Praia?! Como assim?! E as correntes? E as ondas?

“De família” - Volto a mim.

“Sozinhos” - Pronto, a alma sai-me do corpo.

Mas deixei.

Deixei porque estes miúdos até são atinados sabem portar-se como crescidos. Não sabem nada, estava a ser parva. Aliás, se há coisa que a adolescência me mostra diariamente é que eles conseguem ser brilhantes, sensíveis, responsáveis e, no minuto seguinte, achar que levar um casaco “não é preciso” porque “também não está assim tanto frio”. Em Janeiro, com 9 graus lá fora. Génios.

Deixei porque há uma altura em que os filhos começam inevitavelmente a sair de casa antes de saírem verdadeiramente de casa.

Estes seres que não são adultos mas também não são crianças, embora oscilem de um lado para o outro, têm planos que não nos incluem (aliás, fazem questão que não estejamos mesmo. Eu nem percebo, porque tenho uns mooves bem giros que adorava ensinar à grupeta na discoteca. Em cima da coluna, mas o Afonso tem vergonha. Não percebo...). Têm conversas que não ouvimos (ou que fingimos não ouvir). Têm grupos que funcionam com códigos próprios. Têm histórias que só contam pela metade. Têm programas que aparecem no último minuto. Têm férias com amigos. Torneios. Noites. Deslocações. Risos que não sabemos de onde vêm. Silêncios que tentamos não levar a peito.

E, no meio disto tudo, nós ficamos ali: com o orgulho de os ver crescer e com uma vontade absurda de lhes instalar um GPS emocional, logístico e também meteorológico (para perceberem de uma vez que temos 4 estações).

A investigação sobre adolescência diz-nos que este movimento é normal e mais importante: é necessário. Estes semi-adultos precisam de ganhar autonomia, construir identidade, pertencer a grupos fora da família, tomar decisões, testar limites e perceber quem são quando não estão debaixo do nosso olhar.

Ou seja, visto assim, não é bem um afastamento. É desenvolvimento.

E importante: nós também temos de mudar de fase.

Deixamos de controlar horários, casacos, lanches e mochilas, e passamos a negociar confiança, responsabilidade, localização ativa e mensagens de chegada. Deixamos de perguntar “já lavaste os dentes?” e começamos a perguntar “como é que voltam para casa de madrugada?”…é muita intensidade, não é? Deixamos de estar sempre fisicamente presentes e temos de aprender a ser retaguarda. E, tudo o que envolva não estar de mão dada ou com eles ao colo pode ser difícil.

Então, eu por cá, antes de ele ir, escrevi-lhe as regras.

Não foram regras para aborrecer as férias (perspetiva do meu filho). Foram regras para que as férias pudessem acontecer (a perspetiva da mãe. A minha, portanto.).

Disse-lhe que esperava que se divertisse muito. Que aproveitasse estas primeiras férias entre amigos. Que confiava nele. Mas também lhe disse uma coisa que me parece essencial: confiar não significa deixar de me preocupar.

Por isso, havia regras:

1. Enviar a morada completa da casa.

2. Manter o telemóvel carregado.

3. Ter a localização ativa.

4. Mandar mensagem quando chegasse.

5. Avisar quando saíssem à noite e dizer para onde iam.

6. Enviar-me mensagem quando regressassem, fosse a que horas fosse.

7. Avisar antes, e não depois, se os planos mudassem.

Parece básico, eu sei. Mas na adolescência o básico precisa muitas vezes de ser dito em voz alta, por escrito e, idealmente, com letras invisivelmente sublinhadas a marcador fluorescente e com assinatura reconhecida em notário e enviada depois em Cc para a DT. E mesmo assim…

Depois havia as regras de segurança.

1. Nunca deixar ninguém sozinho.

2. Nunca aceitar bebidas já abertas.

3. Nunca aceitar copos de pessoas que conheceram nas férias (já nem falo das que não conhecem…).

4. Nunca entrar em carros de pessoas que conheceram lá, mesmo que se tratem por manos…porque na verdade não são irmãos, ok miúdos? E esta regra do carro não tinha rodapé, exceção, interpretação criativa ou “mas mãe, ele parecia super fixe”. Não! Há regras que não são negociáveis.

Também falámos sobre álcool. Não com drama, mas com realidade. Aos 16 anos, fingir que o tema não existe é pouco útil. O que eu lhe disse foi: usa a cabeça. Não bebas ao ponto de perder o controlo. Não mistures bebidas. Não aceites copos de outras pessoas. Se vires um amigo mal, não o deixes sozinho. Mas preferia que, a ter uma primeira experiência, a tivesse comigo (já noutras ocasiões o tinha dito).

E depois veio a regra mais importante de todas:

Se acontecer alguma coisa, liga-me. Se fizeres algum disparate, liga-me. Se estiveres assustado, liga-me. Se algum amigo estiver mal, liga-me. Se precisares de ajuda, liga-me. Naquele momento, a minha prioridade será sempre ajudar-te. As conversas, os ralhetes e as consequências, se tiverem de existir, ficam para depois.

Esta talvez seja a parte mais importante da parentalidade na adolescência: garantir que continuamos a ser um lugar seguro, mesmo quando eles fazem escolhas menos boas, ou uma grande trampa.

A investigação sobre parentalidade na adolescência fala muito deste equilíbrio: apoio e limite. Afeto e estrutura. Autonomia e presença. Nem controlo absoluto, nem permissividade total.

A parentalidade que ajuda não é a que diz “faz o que quiseres”, nem a que diz “não fazes nada sem mim”. É a que diz: “vai, mas vai com cabeça”. “Confio em ti, mas há regras.” “Quero que tenhas mundo, mas quero que saibas voltar.” “Não estou em cima de ti, mas estou aqui.”

Claro que isto é muito bonito escrito. Mas na prática, uma mãe continua a ser uma mãe. E uma mãe com um filho de 16 anos fora de casa, com amigos, no Algarve, sem adultos, pode dizer “diverte-te” e, por dentro, fazer um inventário mental de todos os perigos possíveis e alguns (provavelmente a maioria) altamente improváveis. Pode acordar a meio da noite, ver se há alguma mensagem, confirmar se a localização está onde devia estar, voltar a dormir, acordar outra vez e…vendo bem, estamos quase com privação de sono e desta vez não temos nem os biberões nem as fraldas.

Educar não é garantir que eles nunca correm riscos. Isso é impossível. E não é saudável. Educar é tentar que, quando o risco aparecer, eles tenham dentro deles algum critério, algum poder de decisão, alguma memória do que foi conversado em casa. É esperar que saibam escolher. Que saibam sair de uma situação desconfortável. Que saibam proteger um amigo. Que saibam pedir ajuda.

No dia a seguir ao regresso das férias, o meu filho foi a um torneio com a equipa de futebol. Quase nem o vi. A vida dele a alargar-se para além do diâmetro da minha saia. E então tento convencer-me que ele não está necessariamente a afastar-se de casa, mas está a começar a levar casa dentro dele.

Mesmo quando responde só “ok”, ou “foi bom” (esta fluência verbal mexe comigo, confesso). Mesmo quando acha que estou a exagerar (portanto, praticamente todos os dias). Mesmo quando demora mais do que devia a mandar a mensagem (ou se esquece de enviar porque aconteceu qualquer coisa cuja responsabilidade, obviamente, não lhe assiste).

Mesmo quando diz “mãe, calma, chila”.

Crescer é isto. Para eles, ganhar mundo. Para nós, aprender a ficar na retaguarda sem desaparecer. Com saudades. Mas com orgulho. Com o coração um bocadinho apertado. E com o telemóvel carregado. Sempre.

Perguntas respondidas

Quem assina este artigo?

O artigo é assinado por Rita Matos, uma das fundadoras do Hub Outside.

Sobre o que é este texto?

É uma reflexão sobre adolescência, autonomia, limites, segurança e o momento em que os filhos começam a ganhar mundo fora da família.

O texto defende controlo ou liberdade total?

O texto fala sobre equilíbrio: confiar, dar autonomia e, ao mesmo tempo, manter regras claras, presença e disponibilidade para ajudar.

Fontes e referências

  • Texto autoral de Rita Matos, fundadora do Hub Outside.
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